Gostamos assim tanto de dívida?

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A resposta só pode ser afirmativa, certo? Afinal, em 2015 os bancos emprestaram mais 9.278 milhões de euros às famílias portuguesas (cerca de metade para compra de casa e outra metade para consumo e outros fins). No final desse ano, a dívida das famílias portuguesas à banca ascendia a 118.500 milhões de euros. Durante esse período, as famílias auferiram um rendimento bruto de 120.757 milhões de euros e consumiram 121.819,7. Parece que níveis altos de consumo andam de mãos dadas com níveis altos de dívida.

Mas será que estes números revelam toda a realidade sobre a dívida? E os empréstimos de familiares e amigos? E as dívidas às Finanças e à Segurança Social? E as rendas da casa ou facturas da água, energia e telecomunicações por pagar? Estamos ainda mais endividados do que aquilo que pensamos!

Qual o conceito de dívida?

Mas não é só uma questão de números, é uma questão de semântica. “Dívida” ou “estar em dívida” não significa o mesmo para todos. Se o empréstimo para a compra da casa ou do carro não levanta grandes dúvidas, que dizer das compras a prestações (com ou sem juros)? E do saldo do cartão de crédito, depois de efectuado o pagamento mínimo? O que é certo é que nem todos aplicamos o conceito de dívida – obrigação de realizar pagamentos no futuro – às mesmas realidades.

Dívida é a obrigação de realizar pagamentos no futuro

Também é certo que os números escondem muita diversidade. Pode existir muita dívida e muita gente endividada, mas tal não significa que todos estejamos endividados por igual. Mais: tal não significa que sejamos todos igualmente tolerantes à dívida. Muitos de nós sentem-se confortáveis em pedir emprestado ao nosso rendimento futuro, de forma a consumir hoje o que vamos ganhar amanhã. Outros, pelo contrário, consideram que só se deve pedir emprestado em caso de emergência, para fazer face a algum imprevisto. Outros ainda, usam a dívida para fazer face às despesas correntes, perante um rendimento «que já não é o que era». Outros, finalmente, não usam dívida nem sequer gostam de ouvir falar no assunto. Pagam sempre a pronto, nunca a prestações, e não aproveitam os prazos de pagamento que lhes são oferecidos. Alguns vão mesmo ao extremo de recusar empréstimos com taxa de juro zero.

Como se explica então o endividamento?

Parece razoável concluir que não somos todos, em média, responsáveis por este mar de dívida que vai fazendo flutuar o consumo privado e que, por vezes, parece que vai afogar-nos. Pessoas muito tolerantes à dívida, provavelmente muito materialistas, cruzam-se com o extremo oposto, isto é, com indíviduos avessos à dívida, porventura mais frugais e com os olhos mais postos no futuro. Em média, o nosso endividamento resultará desta apetência/aversão, da pressão das necessidades quotidianas e da aceitação social da dívida. Um elástico esticado, uma vez solto, retoma a forma inicial.

Quem é avesso à dívida, mas se endivida por necessidade, liquida as dívidas logo que possa. Mas será que, tal como a tensão pode alterar a forma do elástico, alongando-o, a exposição à dívida nos torna mais tolerantes à dívida?

Participe no meu estudo!

Quer ajudar-me a perceber melhor o comportamento de dívida? Pretendo perceber quais as causas e as características de cada tipo de comportamento. Para tal apenas lhe peço que preencha um breve questionário no âmbito do meu projeto de doutoramento (habilita-se a ganhar um de dois vouchers de €200).

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Diogo Ribeiro Santos é Professor de Finanças na AESE Business School e partner na BlueCrow Capital, uma sociedade de serviços financeiros. Tem experiência como gestor e consultor. É actualmente aluno do PhD in Management da Universidade Europeia | Laureate International Universities, sob a orientação do Professor Marc Scholten. Investiga na área da economia comportamental

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