IPO da Raize – Valerá a pena?

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Ficámos a conhecer nos últimos dias que a Raize, a principal plataforma de crowdfunding Portuguesa, irá entrar em bolsa. Neste artigo, deixamos algumas notas sobre a leitura do relatório que a empresa colocou no seu site sobre esta operação e reiteramos que este artigo não representa qualquer tipo de recomendação mas antes algumas ideias sobre a operação, porque a decisão é sempre sua.

Opinião sobre a Raize

Quem nos acompanha tem analisado alguns artigos em que escrevemos sobre a experiência de um investidor numa carteira de empréstimos da Raize. Nesses artigos temos dado nota dos bons níveis de retorno mas também de alguns fatores que consideramos importantes de ter em conta.

Neste contexto, parece-me importante ter em consideração que a tendência de mercado passa cada vez mais pela digitalização da relação bancária e do investimento e ai a Raize fica bastante bem posicionada. No entanto, parece-me que este negócio irá sempre envolver muitas pessoas (analistas de crédito) e que no momento em que a economia começar a fraquejar teremos dois problemas (1) mais incumprimentos e (2) aumento do risco da carteira. Não me parece razoável que as PME consigam suportar um encargo financeiro de 7% a 10% ao ano.

Objetivo desta operação

Quem investe num qualquer projeto empresarial tem o objetivo de obter rendimento. Quer ter retorno. Neste caso, falamos de um projeto que foi lançado há pouco tempo e com bastante investimento e compromisso dos seus acionistas. No entanto, destacamos as principais motivações:

  1. Reforçar a notoriedade e a credibilidade da Sociedade – Algo que é fundamental neste setor e que tem toda a razão de ser;
  2. Permitir ao mercado, em geral, um melhor acompanhamento e visibilidade da atividade da Sociedade e da evolução dos seus negócios – Não necessitavam de vir para a bolsa para dar esta visibilidade, mas as exigências legais e reporte de informação são fundamentais;
  3. Alargar a base acionista e facilitar futuros aumentos do seu capital social que sejam necessários ao desenvolvimento das suas atividades – Não compreendo.
  4. Promover retorno acionista referente ao investimento já realizado na Sociedade, sem afetar a atual estrutura de controlo e gestão, assim como o cumprimento do plano de crescimento e de negócios – Esta parece ser a principal motivação da operação, que é legítima. Esta operação consiste na venda de uma percentagem da empresa, o que significa que os atuais acionistas vão reduzir as suas quotas e obter aqui um retorno bastante elevado, especialmente se tivermos em conta os resultados da empresa. Ou seja, a empresa não está a obter fundos para investir na atividade.
  5. Possibilitar a Admissão das Ações da Sociedade no Euronext Access – O facto da empresa estar cotada em bolsa poderá trazer uma pressão adicional para a empresa apresentar resultados (isto preocupa-me pois poderá influenciar a concessão de crédito).

Resultados financeiros da Raize

Nos últimos meses fiquei algo curioso relativamente aos resultados da empresa. Tinha desejo em conhece-los para perceber a evolução da operação. Constato que apesar do crescimento da empresa, esta apenas faturou perto de €270.000 em 2017. Uma empresa a crescer e com perspetivas aparentemente positivas. Apesar do crescimento, é fundamental perceber que a empresa está numa fase inicial e desde a sua criação que tem vindo a acumular prejuízos. Mais uma vez, é normal numa empresa em inicio de atividade e que está a investir.

De notar que a empresa ganha dinheiro recebendo uma comissão de intermediação de crédito que poderá ir até 5%. Logo, para que a empresa tenha um volume de faturação de €1m por ano necessita de financiar €20 milhões de crédito. É perfeitamente possível, apesar de ser ambicioso. Investidores creio que existem, empresas a procurar este montante talvez seja mais difícil.

Software

A Raize intitula-se de Fintech, uma abreviatura para empresa financeira tecnológica. É certo que a sua operativa tem um suporte informático mas estranho que o ativo informático esteja apenas valorizado no balanço da empresa em sensivelmente €55.000.

Avaliação da empresa

Os critérios de cotação da empresa em bolsa, nomeadamente em termos de preço e volume de ações, avalia a empresa em €10 milhões. Aliás, se analisarmos o documento de suporte à operação vemos que avaliam a empresa entre €11.1m e €16.4m. Por muito que ache interessante o modelo de negócio, não consigo perceber esta valorização pois considero que toda a avaliação tem de estar suportada em resultados financeiros, em lucro ou na constituição de uma carteira de ativos que tenham valor por si. É claro que o valor de uma ação tem em conta os resultados futuros e não os resultados do passado. Mas não consigo compreender esta avaliação e muito menos que se diga que a operação venha com um desconto face a esta mesma avaliação.

Em suma

Face ao exposto e resumindo, acho interessante o modelo de negócio e vejo que tem potencial no futuro de digitalização da relação bancária. Compreendo o objetivo de os principais acionistas retirarem retorno desta operação. Não compreendo esta valorização. Agora resta-lhe decidir se quer participar nesta operação, sempre consciente que qualquer decisão deve ser ponderada, a informação analisada e todas as decisões enquadradas na sua política de investimentos (perfil de risco, horizonte de investimento, etc).

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João Morais Barbosa
Iniciou a sua carreira no setor financeiro onde desempenhou funções de analista de ações e gestor de fundos de investimento. Especialização em mercados e ativos financeiros no ISCTE e uma pós-graduação em Análise Financeira no ISEG, curso que lhe conferiu o Certificado Europeu de Analista Financeiro. Fundou a Escola de Finanças Pessoais – sendo co-autor de seis livros nesta temática (Manual das Finanças Pessoais, Manual da Poupança, Como Acabar com as Dívidas Pessoais e Familiares, O meu primeiro livro de Finanças Pessoais e Como ensinar o meu filho a poupar, Viva uma Reforma Feliz). Através da Escola de Finanças Pessoais já formou mais de 5.000 colaboradores de empresas nacionais e internacionais. Tendo sido Diretor-Comercial na DignusCapital, decide criar o seu projeto próprio na área da renegociação e intermediação de crédito, fundando a Reorganiza, empresa onde trabalha atualmente.

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