Contabilidade Mental Nos Investimentos – Como Nos Enganamos?

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Contabilidade Mental

O processo de decisão tem vindo a ser estudado há muitos anos por investigadores da economia comportamental. Temos trabalhado no campo da contabilidade mental e mostrar como nos enganamos a nos próprios no campo dos investimentos.

O que é isto da contabilidade mental?

Tanto as empresas como os particulares têm a necessidade de organizar as suas vidas financeiras. As empresas têm equipas de contabilidade (quando tal se justifica) que fazem o controlo de receitas e de custos em 3 etapas:

  1. Codificação – São identificadas as grandes rúbricas de receitas e de custos;
  2. Categorização – As receitas e os custos são colocadas em contas;
  3. Avaliação – A contabilidade é avaliada e tomam-se medidas de controlo.

As pessoas pensam de forma semelhante. Identificamos os nossos rendimentos e as nossas despesas, atribuindo-lhes uma categoria. Temos despesas domésticas, divertimento, transporte, investimento, preparação da reforma, entre outros.

A contabilidade mental facilita-nos a vida

Fazer esta contabilidade mental permite-nos tomar decisões mais rapidamente. Economizamos em tempo e complexidade. As decisões são mais rápidas, as interpretações mais assertivas e as medidas de controlo mais imediatas.

Nos investimentos funciona tudo de forma semelhante. Mas somos confrontados com um problema. Se as receitas e despesas são colocadas em contas temos de decidir quando fechamos estas contas. Quando falamos de um investimento isto é visto na prática quando registamos um lucro ou uma perda.

Quando registamos o ganho (ou a perda)?

Imagine que compra uma ação. Como sabe, o valor das ações oscila todos os dias. Pode subir ou descer, sendo a sua evolução incerta. É lógico que investimos para ganhar dinheiro mas temos o risco de poder ver as nossas expetativas furadas.

Agora, quando é que sentimos o ganho ou a perda? Sentimos no momento em que ocorre ou no momento em que vendemos a ação (e fechamos a nossa conta mental)? Nesta vertente podemos falar de dois conceitos (sendo pouco rigorosos):

  • Ganho contabilístico – a oscilação do preço é registada nas nossas contas mentais como um ganho ou uma perda contabilística.
  • Ganho real – Registamos nas nossas contas o ganho ou a perda quando vendemos a ação.

Porque é isto importante?

Em termos práticos, qualquer oscilação do preço faz-nos ficar mais ricos ou mais pobres em qualquer um dos cenários. No entanto, por algum motivo achamos que só perdemos dinheiro se vendermos a ação, algo que faz com que cometamos um erro grave:

Tendemos a vender as ações ganhadoras e conservar as ações perdedoras

Não só assistimos a este erro na nossa carteira no presente como no futuro. Assumir uma perda real é doloroso. Não gostamos de admitir que erramos e muito menos gostamos de perder dinheiro. Acontece que são estas as regras do jogo. Quem investe tem de estar na disposição de ganhar e de perder. E como não admitimos o erro acabamos por não aprender com ele. O nosso mecanismo de contabilidade mental leva-nos a cometer um erro que é financeiramente penalizador.

E quando as perdas são devastadoras?

Este esquema de decisão é penalizador como vimos. Mas pode ser catastrófico quando nos recusamos a assumir uma má decisão de forma prolongada no tempo. Temos inúmeros exemplos de investidores que compraram ações de várias empresas em Portugal e que foram evitando reconhecer uma perda (vender a ação). A expetativa seria sempre a de que o preço iria recuperar. Até que não recuperou, o que se traduziu em:

  1. Apesar de a perda ser grande, somos cada vez menos sensíveis a perdas de valor. A expetativa de recuperação do preço alimenta a esperança e sentimos muito essa esperança em algo que os economistas chamam de ganho marginal (ficamos mais satisfeitos com uma recuperação de uma perda do que com um ganho, apesar de financeiramente serem a mesma coisa);
  2. Alteração de conta mental. Ao perdermos muito dinheiro movemos aquelas ações da conta de investimentos para outra conta que poderemos chamar de investimentos de longo prazo ou de casos perdidos. Ao mudarmos a conta mental acabamos por mudar a nossa postura face a este investimento e isso talvez justifique que muitas pessoas paguem demasiadas comissões de manutenção de dossier de títulos face ao valor dos seus ativos.

O que podemos aprender e fazer?

Em primeiro lugar, temos de reconhecer que perdemos ou ganhamos dinheiro sempre que os preços oscilam de valor. E isto é positivo pois se fizermos uma boa análise a probabilidade de virmos a ganhar dinheiro é maior do que a probabilidade de perdermos dinheiro nos investimentos. Não é garantido, mas é provável.

Em segundo lugar, deveremos fazer uma análise e um acompanhamento adequado da nossa carteira de investimentos, tentando perceber os motivos pelos quais os investimentos correm bem ou mal. E agir em conformidade, não tendo medo de assumir os erros. Nunca se esqueça que a aprendizagem que retiramos dos erros pode ser bem mais valiosa do que o ganho naquele produto específico.

Apesar de sermos todos diferentes os nossos comportamentos e os enviesamentos no nosso processo de decisão são semelhantes (dentro de grupos). Estes fenómenos já foram estudados por muita gente e temos de procurar aprender com estes erros para aumentar a probabilidade de virmos a ganhar dinheiro com o tempo. E depois será aproveitar.

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João Morais Barbosa
Iniciou a sua carreira no setor financeiro onde desempenhou funções de analista de ações e gestor de fundos de investimento. Especialização em mercados e ativos financeiros no ISCTE e uma pós-graduação em Análise Financeira no ISEG, curso que lhe conferiu o Certificado Europeu de Analista Financeiro. Fundou a Escola de Finanças Pessoais – sendo co-autor de seis livros nesta temática (Manual das Finanças Pessoais, Manual da Poupança, Como Acabar com as Dívidas Pessoais e Familiares, O meu primeiro livro de Finanças Pessoais e Como ensinar o meu filho a poupar, Viva uma Reforma Feliz). Através da Escola de Finanças Pessoais já formou mais de 5.000 colaboradores de empresas nacionais e internacionais. Tendo sido Diretor-Comercial na DignusCapital, decide criar o seu projeto próprio na área da renegociação e intermediação de crédito, fundando a Reorganiza, empresa onde trabalha atualmente.

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